segunda-feira, 28 de julho de 2014

Uma Breve Descrição Da Psicanálise

                                                         Resumo Do Capítulo V


      1° Nota Sobre Sonhos - Os Sonhos  foram interpretados com sucesso pela técnica analítica - os Sonhos, que são parte da vida mental de pessoas normais e que, no entanto, podem com efeito ser encarados como produtos patológicos capazes de ocorrer regularmente em estados sadios.




      2° Neuroses X Religiões - Tomando um exemplo de outro campo, é impossível fugir à impressão da correspondência perfeita que pode ser descoberta entre as ações obsessivas de certos pacientes obsessivos e as observâncias religiosas dos crentes em todo o mundo. Certos casos de Neurose Obsessiva na realidade se comportam como uma caricatura de uma religião particular, de modo que é tentador assemelhar as religiões oficiais a uma neurose obsessiva, que foi mitigada por se tornar universalizada. Essa comparação, que sem dúvida é altamente objetável a todos os crentes, não obstante se mostrou psicologicamente muito frutífera, pois a Psicanálise logo descobriu no caso da neurose obsessiva, quais são as forças que nela combatem entre si até seus conflitos encontrarem expressão notável no cerimonial das ações obsessivas. Nada de semelhante era suspeitado no caso do cerimonial religioso até que, remontando o sentimento religioso à relação com o pai como sua raiz mais profunda, tornou-se possível apontar para uma situação dinâmica análoga também nesse caso.




      3° Primeiro Argumento - Caso possamos presumir que os aspectos mais gerais da vida mental inconsciente (conflitos entre Impulsos Instituais, Repressões e Satisfações Substitutas) estejam presentes em toda parte, e se há uma Psicologia Profunda que conduz a um conhecimento desses aspectos, podemos então razoavelmente esperar que a aplicação da Psicanálise às mais variáveis esferas da atividade mental humana em toda parte trará à luz resultados importantes e até então inatingíveis.
           Se deixarmos fora de cogitação impulsos internos pouco conhecidos, podemos dizer que a principal força motivadora no sentido do desenvolvimento cultural do homem  foi a Exigência Externa Real, que retirou dele a Satisfação Fácil de suas necessidades naturais e o expôs a perigos imensos. Essa Frustração Externa o impeliu a uma luta com a realidade, a qual findou parcialmente em uma adaptação a ela e, em parte, no controle sobre ela; contudo também o impeliu a trabalhar e viver em comum com os de sua espécie, e isso já envolvia uma renúncia de certo número de Impulsos Instintuais impossíveis de ser socialmente satisfeitos. Com os avanços ulteriores da civilização cresceram também as exigências da Repressão. A civilização, afinal de contas, está construída inteiramente sobre a renúncia ao Instinto, e todo indivíduo, em sua jornada da infância à maturidade, precisa, em sua própria pessoa, recapitular esse desenvolvimento da humanidade a um estado de criteriosa resignação. A Psicanálise demonstrou que foram predominantemente, embora não exclusivamente, os Impulsos Instintuais que sucumbiram a essa supressão cultural. Parte deles, contudo, apresenta a característica valiosa de se permitirem ser desviados de seus objetivos imediatos e colocar assim sua energia à disposição do desenvolvimento cultural, sob a forma de Tendências 'Sublimadas'. Outra parte, porém, persiste no Inconsciente como Desejos Insatisfeitos e pressiona por alguma satisfação, ainda que deformada.


      4° Uma Introdutória Sobre A Sublimação (Segundo Argumento) - A Psicanálise nos diz agora, ademais, que uma outra parte, particular e altamente prezada, do trabalho mental criativo serve para a realização de desejos - para a satisfação substitutiva dos desejos reprimidos que, desde os dias da infância, vivem insatisfeitos no espírito de cada um de nós. Entre essas criações, cuja vinculação com um Inconsciente Incompreensível sempre foi suspeitada, estão os mitos e as obras da literatura imaginativa e da arte, e as pesquisas da Psicanálise realmente arrojaram luz em abundância sobre os campos da mitologia, da ciência, da literatura e da psicologia dos artistas. Demonstramos que os mitos e os contos de fadas podem ser interpretados como Sonhos, traçamos os caminhos sinuosos que levam da premência do desejo inconsciente à sua realização em uma obra de arte sobre o observador e no caso do próprio artista tornamos claro seu parentesco emocional com o neurótico bem como sua distinção deste, e apontamos a vinculação existente entre sua disposição inata, suas experiências fortuitas e suas realizações.




      5° O Escândalo Do Complexo De Édipo (Terceiro Argumento) - E então, como terceiro argumento, a Psicanálise nos demonstrou, para nosso crescente assombro, o papel enormemente importante desempenhado pelo que é conhecido por 'Complexo de Édipo' - isto é, a relação emocional de uma criança humana com seus dois pais - na vida mental dos seres humanos. Nosso assombro se reduz quando compreendemos ser o Complexo de Édipo o correlativo psíquico de dois fatos biológicos fundamentais:

  • 1° - O grande período de dependência da criança humana;
  • 2° - E a maneira notável pela qual sua vida sexual atinge um primeiro clímax do terceiro ao quinto ano de vida, e depois, passado um período de inibição, reinicia-se na puberdade.
      E aqui se faz a descoberta de que uma terceira parte extremamente séria da atividade intelectual humana, a parte criadora das grandes instituições da religião, do direito, da ética e de todas as formas de vida cívica, tem como seu objetivo fundamental capacitar o indivíduo a dominar seu Complexo de Édipo e desviar-lhe a Libido de suas ligações infantis para as ligações sociais que são enfim desejadas. 




     6° A 'Psicologia' Do ID - Não se deve esquecer, contudo, que a Psicanálise sozinha não pode oferecer um quadro completo do mundo. Se aceitarmos a distinção que recentemente propus, de dividir o Aparelho Psíquico em um Ego, voltado para o mundo externo e aparelhado com a Consciência, e em um ID Inconsciente, dominado por suas necessidades instintuais, então a Psicanálise deve ser descrita como uma Psicologia do ID (e seus efeitos sobre o Ego). Em cada campo do conhecimento, portanto, ela só pode fazer contribuições, que requerem ser completadas a partir da Psicologia do Ego. Se essas contribuições amiúde contém a essência dos fatos, isso apenas corresponde ao importante papel que, pode-se reivindicar, é desempenhado em nossas vidas pelo inconsciente mental que por tanto tempo permaneceu desconhecido.

Análise De Uma Mente - Sigmund Freud

      Para os que se interessarem, aqui está um pequeno, porém, muito rico documentário sobre a vida de Sigmund Freud. No mesmo, há um singelo resumo sobre a vida, algumas obras, crenças e curiosidades sobre Freud.





Uma Breve Descrição Da Psicanálise

                                                              Resumo Do Capítulo IV


      1° A Fundação Da Primeira Clinica Psicoanalítica - No decurso desse desenvolvimento a técnica da Psicanálise se tornou tão definida e delicada quanto a de qualquer outro ramo especializado da medicina. Uma falha na compreensão desse fato levou a muitos abusos (particularmente na Inglaterra e nos Estados Unidos), porquanto pessoas que adquiriram apenas um conhecimento literário da Psicanálise a partir de leituras se consideram capazes de empreender tratamentos analíticos sem ter recebido qualquer informação especial. As consequências de tal comportamento são prejudiciais tanto para a ciência quanto para os pacientes e acarretam muito descrédito para a Análise. A fundação de uma primeira Clínica Psicanalítica para pacientes externos (por Max Eitingon, em Berlim, em 1920) tornou-se, portanto, um passo de grande importância prática. Esse instituto busca, por um lado, tornar o tratamento analítico acessível a amplos círculos da população e, por outro, empreende a instrução de médicos para serem Analistas Clínicos através de um curso de formação incluindo como condição que aquele que aprende concorde em ser ele próprio analisado.


      2° Surgem As Neuroses, A Libido E Os Distúrbios - Entre os conceitos hipotéticos que capacitem o médico a lidar com o Material Analítico, o primeiro a ser mencionado é o da 'Libido'.

  • Libido - Em Psicanálise, significa em primeira instância a Força (imaginada como quantitativamente variável e mensurável) dos Instintos Sexuais dirigidos para um objeto - 'sexuais' no sentido ampliado exigido pela teoria analítica. Um estudo mais completo demonstrou que era necessário colocar ao lado dessa 'Libido Objetal' uma 'Libido Narcísica' ou 'Do Ego', dirigida para o próprio Ego do indivíduo, e a interação dessas duas forças nos capacitou a explicar grande número de processos normais e anormais na Vida Mental.


      Uma distinção grosseira logo se fez entre o que é conhecido por 'Neuroses De Transferência' e os 'Distúrbios Narcísicos':

  • Neuroses De Transferência (Histeria e Neurose Obsessiva) E Distúrbios Narcísicos - Constituem os objetos propriamente ditos do tratamento psicanalítico, ao passo que as outras, as Neuroses Narcísicas, embora possam deveras ser examinadas com o auxílio da análise, oferecem dificuldades fundamentais à influência terapêutica. 


      É verdade que a Teoria da Libido da Psicanálise não está absolutamente completa e sua relação com uma teoria geral dos Instintos não é clara, pois a Psicanálise é uma ciência jovem, ainda inacabada, e em estágio de rápido desenvolvimento. Porém aqui se deve enfaticamente apontar quão errônea é a acusação de Pansexualismo que com tanta frequência é dirigida contra a Psicanálise. Ela busca demonstrar que a teoria psicanalítica não conhece outras forças motivadoras mentais senão as Puramente Sexuais e, assim procedendo, explora preconceitos populares pelo emprego da palavra 'sexual' não em seu sentido analítico, mas no vulgar.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Uma Breve Descrição Da Psicanálise

                                                              Resumo Do Capítulo III


      1° Provas E Utilidades Iniciais Do Surgimento Da Psicanálise - Provas de ela ser útil para lançar luz sobre outras atividades que não a atividade mental patológica, logo se apresentaram, em vinculação com dois tipos de fenômenos: as Parapraxias muito frequentes que ocorrem na vida cotidiana - tais como esquecer coisas, lapsos de língua e colocação errada de objetos - e os Sonhos tidos por essas pessoas sadias e psiquicamente normais. Pequenas falhas de funcionamento, tais como o esquecimento temporário de nomes próprios normalmente familiares, lapsos de língua e de escrita, e assim por diante, até então não tinham sido considerados dignos de qualquer explicação, ou se imaginava que fossem explicáveis por estados de fadiga, pela distração da atenção etc. O presente autor demonstrou então, a partir de muitos exemplos, em seu livro The Psychopathology Of Everyday Life (1901b), que acontecimentos desse tipo tem um Significado ou surgem devido a uma intenção Consciente com a qual interfere uma outra, suprimida ou realmente Inconsciente. Via de regra, uma rápida reflexão ou breve análise é suficiente para revelar a influência interferente. Devido à frequência de parapraxias tais como os lapsos de língua, tornou-se fácil a qualquer pessoa convencer-se, por sua própria experiência, sendo, não obstante, operantes, e que, pelo menos, encontram expressão como inibições e modificações de outros atos pretendidos.




      2° O Introdutório Da Interpretação Dos Sonhos - A análise dos Sonhos levou mais longe: ela foi trazida a público pelo presente autor já em 1900, em A Interpretação De Sonhos, que demonstrava serem os sonhos construídos exatamente da mesma maneira que os sintomas neuróticos. Como esses últimos, eles podem parecer estranhos e sem sentido; porém, se os examinarmos através de uma técnica que pouco difere da Associação Livre utilizada na Psicanálise, somos levados de seu Conteúdo Manifesto a um Significado Secreto, aos Pensamentos Oníricos Latentes. Esse Significado Latente é sempre um Impulso Desejoso, o qual se representa como Realizado no momento do Sonho. Entretanto, exceto em crianças pequenas e sob a pressão de necessidades físicas imperativas, esse desejo secreto jamais pode ser expresso de modo identificável. Ele primeiro tem de se submeter a uma Deformação, que é o trabalho de Forças Censurantes, Restritivas, tal como é relembrado na vida desperta. Ele é Deformado, a ponto de ser irreconhecível, por concessões feitas à Censura do Sonho, porém pode ser, através da análise, mais uma vez revelado como expressão de uma situação de Satisfação ou como a Realização de um Desejo.




      3° O Que É Sonho Para A Psicanálise? - A fórmula que, no fundo, melhor atende à essência do Sonho é esta: o Sonho é uma Realização (disfarçada) de um Desejo (reprimido). O estudo do processo que transforma o Desejo Latente Realizado No Sonho no Conteúdo Manifesto Do Sonho - processo conhecido como 'Trabalho Do Sonho' - ensinou-nos a maior parte do que sabemos sobre a vida mental inconsciente. Ora, o Sonho não constitui um Sintoma Mórbido, mas é o produto de uma mente normal. Os Desejos que ele representa como Realizados são os mesmos que aqueles reprimidos nas neuroses. Os Sonhos devem a possibilidade de sua gênese simplesmente à circunstância favorável de a Repressão, durante o estado de sono que paralisa o poder do movimento do homem, ser mitigada na Censura Do Sonho. Assim, prova-se que as mesmas forças e os mesmos processos que se realizam entre elas operam tanto na vida mental oral quanto na patológica. A partir da data de A Interpretação De Sonhos, a Psicanálise teve uma dupla significação. Constitui não apenas um novo método para tratar as neuroses, mas também uma nova Psicologia; reivindicou a atenção não só dos especialistas em nervos como também a de todos que eram estudiosos de uma ciência mental.




      4° O Ataque À Psicanálise - A recepção que lhe foi dada no mundo científico, porém, não foi amistosa. Por cerca de 10 anos ninguém prestou atenção aos trabalhos de Freud. Por volta do ano de 1907, um grupo de psiquiatras suíços (Bleuler e Jung, em Zurique) atraiu a atenção para a Psicanálise, e uma tormenta de indignação, não precisamente fastidiosa em seus métodos e argumentos, irrompeu logo após, principalmente na Alemanha. Nesse aspecto, a Psicanálise partilhava da sorte de muitas novidades que, após certo lapso de tempo, encontraram reconhecimento geral. Entretanto, era de sua natureza que  inevitavelmente despertasse uma oposição especificamente violenta. Ela feria os preconceitos da humanidade civilizada em alguns pontos especialmente sensíveis. Submetia todo indivíduo, por assim dizer, à Reação Analítica, por revelar aquilo que por acordo universal fora reprimido para o Inconsciente, e, desse modo, forçava seus contemporâneos a comportar-se como pacientes que, sob tratamento analítico, acima de tudo trazem suas próprias Resistências para o primeiro plano. Deve-se também admitir que não era fácil convencer-se da correção das teorias psicanalíticas, ou conseguir instrução na prática da Análise.




      5° Freud E Seus Discípulos - Uma diferença essencial entre essa segunda década da Psicanálise e a primeira reside no fato de que o presente autor (Freud) não constituía mais seu único representante. Um círculo sempre crescente de alunos e adeptos se havia reunido em torno dele, dedicando-se, em primeiro lugar, à difusão das teorias da Psicanálise; depois, ampliaram, suplementaram e conduziram essas teorias a maior profundidade. Com o decorrer dos anos diversos desses defensores, como era inevitável, separaram-se, tomaram seus próprios rumos, ou se transformaram em uma oposição que pareceu ameaçar a continuidade do desenvolvimento da Psicanálise. Entre 1911 e 1913, C. G. Jung, em Zurique, e Alfred Adler, em Viena, produziram determinada agitação por suas tentativas de dar novas interpretações aos fatos da Análise e por seus esforços para um desvio do ponto de vista analítico. Entretanto, viu-se logo que essas secessões não haviam causado danos permanentes. O sucesso temporário que tenham atingido foi facilmente explicável pela presteza da massa das pessoas em livrar-se da pressão das exigências da Psicanálise por qualquer caminho que se lhes pudesse abrir. A grande maioria dos colaboradores permaneceu firme e continuou seu trabalho orientada pelas linhas a eles indicadas.



quinta-feira, 26 de junho de 2014

Uma Breve Descrição Da Psicanálise

                                                           Resumo Do Capítulo II


      1° A Transformação Do Método Catártico Em Psicanálise - Logo após a publicação de Estudos Sobre A Histeria, a associação entre Breuer e Freud terminou. Breuer, que na realidade era consultor em medicina interna, abandonou o tratamento de pacientes nervosos e Freud dedicou-se ao aperfeiçoamento ulterior do instrumento que lhe deixara seu colaborador mais idoso. As novidades técnicas que introduziu e as descobertas que efetuou transformaram o método catártico em Psicanálise


      2° Porque Freud Abandonou A Hipnose? - O passo mais momentoso foi sem dúvida sua determinação de passar sem assistência da hipnose em seu procedimento técnico. Procedeu assim por duas razões: em primeiro lugar porque, apesar de um curso de instrução com Bernheim em Nancy, ele não conseguia induzir a hipnose em um número suficiente de casos, e, em segundo, porque estava insatisfeito com os resultados terapêuticos da catarse baseada na hipnose. É verdade que esses resultados eram notáveis e apareciam após um tratamento de curta duração, porém demonstravam não serem permanentes e dependerem demais das relações pessoais do paciente com o médico. O abandono da hipnose causou uma brecha no curso do desenvolvimento do procedimento até então e significou um novo começo.


      3° O Surgimento Da Associação Livre - A hipnose, contudo, desempenhara o serviço de restituir à lembrança do paciente aquilo que ele havia esquecido. Era necessário encontrar alguma outra técnica para substituí-la e a Freud ocorreu a ideia de colocar em seu lugar o método da 'Associação Livre'. Isso equivale a dizer que ele fazia seus pacientes assumirem o compromisso de se absterem de qualquer reflexão consciente e se abandonarem em um estado de tranquila concentração, para seguir as ideias que espontaneamente (involuntariamente) lhe ocorressem - 'a escumarem a superfície de suas consciências'. Deveriam comunicar essas ideias ao médico, mesmo que sentissem objeções em fazê-lo.



      4° A Investigação Do Material Inconsciente Através Da Associação Livre - A escolha da Associação Livre como meio de investigar o material inconsciente esquecido parece tão estranha que uma palavra em justificação dela não estará fora de lugar. Freud foi levado a ela pela expectativa de que a chamada Associação 'Livre' mostrasse de fato não ser livre, porquanto após suprimidos todos os propósitos intelectuais conscientes, as ideias que emergissem pareceriam ser determinadas pelo material inconsciente. Essa expectativa foi justificada pela experiência. Quando a 'regra fundamental da Psicanálise', que acaba de ser enunciada, era obedecida, o curso da Associação Livre produzia um estoque abundante de ideais que podiam nos colocar na pista daquilo que o paciente havia esquecido. Com efeito, esse material não trazia à tona o que realmente fora esquecido, mas trazia tão claras e numerosas alusões a ele que, com o auxílio de certa suplementação e interpretação, o médico podia adivinhar (ou reconstruir) o material esquecido a partir dele. Assim, a Associação Livre, juntamente com a arte da interpretação, desempenhava a mesma função que anteriormente fora realizada pelo hipnotismo.


      5° Nasce A Teoria Da Repressão - Parecia como se o nosso trabalho houvesse ficado mais difícil e complicado; no entanto, o lucro inestimável estava em que se obtinha agora uma compreensão interna (insight) de uma ação recíproca de forças que haviam estado ocultas do observador pelo estado hipnótico. Tornou-se evidente que o trabalho de revelar o que havia sido patogenicamente esquecido tinha de lutar contra uma resistência constante e muito intensa. As próprias objeções críticas que o paciente levantava a fim de evitar comunicar as ideias que lhe ocorriam, e contra as quais a regra fundamental da Psicanálise era dirigida, já eram manifestações dessa Resistência. Uma consideração dos fenômenos da Resistência conduziu-nos a uma das pedras angulares da teoria psicanalítica das neuroses - a teoria da Repressão. Era plausível supor que as mesmas forças, agora então em luta com o material patogênico a ser tornado consciente, haviam realizado em época anterior, com sucesso, os mesmos esforços. Preenchia-se, assim, uma lacuna na etiologia dos sintomas neuróticos. As impressões e impulsos mentais, para os quais os sintomas estavam agora servindo de substitutos, não tinham sido esquecidos sem razão ou por causa de uma incapacidade constitucional para a síntese (como Janet supunha); através da influência de outras forças mentais tinham-se defrontado com uma Repressão cujo sucesso e prova eram precisamente estarem eles barrados à consciência e excluídos da memória. Apenas em consequência dessa Repressão é que eles se haviam tornado patogênicos, isto é, haviam tido êxito em manifestar-se ao longo de caminhos fora do comum, tais como os sintomas.




      6° A Procedência Da Repressão - Um conflito entre dois grupos de tendências mentais deve ser encarado como o fundamento para a Repressão, e, por conseguinte, como a causa de toda enfermidade neurótica. E aqui a experiência nos ensinou um fato novo e surpreendente sobre a natureza das forças que estiveram lutando uma contra a outra. A Repressão invariavelmente procedia da Personalidade consciente da pessoa enferma (seu Ego) e baseava-se em motivos estéticos e éticos; os impulsos sujeitos à Repressão eram os do egoísmo e da crueldade, que em geral podem ser resumidos como o mal, porém, acima de tudo, impulsos desejos sexuais, frequentemente da espécie mais grosseira e proibida. Assim, os sintomas constituíam um substituto para as satisfações proibidas e a moléstia parecia corresponder a uma subjugação incompleta do lado imoral dos seres humanos.


      7° Nasce A Teoria Da Sexualidade Infantil - O progresso em conhecimento tornou ainda mais claro o enorme papel desempenhado na vida mental pelos impulsos desejosos sexuais, e levou a um estudo pormenorizado da natureza e desenvolvimento do Instinto Sexual. Também deparamos, porém, com outro achado puramente empírico, na descoberta de que as experiências e conflitos dos primeiros anos da infância representam uma parte insuspeitadamente importante no desenvolvimento do indivíduo e deixam atrás de si disposições indeléveis que se abatem sobre o período da maturidade. Isso nos trouxe à revelação de algo que até então fora fundamentalmente negligenciado pela ciência - a Sexualidade Infantil, que, da mais tenra idade em diante, se manifesta tanto em reações físicas quanto em atitudes mentais. A fim de reunir essa sexualidade das crianças com o que é descrito como sendo a sexualidade normal dos adultos e a vida sexual anormal dos pervertidos, o conceito do que era sexual devia, ele próprio, ser corrigido e ampliado de uma forma que pudesse ser justificada pela evolução do Instinto Sexual.




      8° Enfim, A Teoria Psicanalítica Das Neuroses - Após a Hipnose ter sido substituída pela técnica de Associação Livre, o Procedimento Catártico de Breuer transformou-se em Psicanálise, que por mais de uma década foi desenvolvida pelo autor (Freud), sozinho. Durante esse tempo ela gradativamente adquiriu uma teoria que parecia fornecer uma descrição satisfatória da origem, significado e propósito dos sintomas neuróticos, e proporcionava uma base racional para tentativas médicas de curar a queixa. Mais uma vez enumerei os fatores que contribuem para a constituição dessa teoria. São eles: ênfase na Vida Instintual (Afetividade), na Dinâmica Mental, no fato de que mesmo os fenômenos mentais aparentemente mais obscuros e arbitrários possuem invariavelmente um Significado e uma Causa, a teoria do Conflito Psíquico e da Natureza Patogênica da Repressão, a visão de que os sintomas constituem Satisfações Substitutas, o reconhecimento da importância etiológica da vida sexual, e especificamente, dos primórdios da Sexualidade Infantil. De um ponto de vista filosófico, essa teoria estava fadada a adotar a opinião de que o mental não coincide com o Consciente, que os processos mentais são, em si próprios, Inconscientes e só se tornam Conscientes pelo funcionamento de órgãos especiais (Instâncias ou Sintomas). Para completar essa lista acrescentarei que entre as atitudes afetivas da infância a complicada relação emocional das crianças com os pais - o que é conhecido por Complexo de Édipo - surgiu em proeminência. Ficou cada vez mais claro que ele era o núcleo de todo caso de neurose, e no comportamento do paciente para com seu analista surgiram certos fenômenos de sua Transferência Emocional que vieram a ser de grande importância para a teoria e a técnica, do mesmo modo. 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Uma Breve Descrição Da Psicanálise



                                                          Resumo Do Capítulo I


      1° - Pode-se dizer que a Psicanálise nasceu com o século XX, pois a publicação em que ela emergiu perante o mundo como algo novo - A Interpretação de Sonhos - traz a data '1900' (porém ela foi realmente publicada no começo de novembro de 1899. Cf. Edição Standard Brasileira, Vol. IV, xviii,
IMAGO Editora, 1972.).



      2° - Porém, como bem se pode supor, ela não caiu pronta dos céus. Teve seu ponto de partida em idéias mais antigas, que ulteriormente desenvolveu-se; originou-se de sugestões anteriores, as quais elaborou. Qualquer história a seu respeito deve, portanto, começar por uma descrição das influências que determinaram sua origem, e não desprezar a época e as circunstâncias que precederam sua criação. 


      Doenças Nervosas "Funcionais" - No início, tinha apenas um único objetivo - o de compreender algo da natureza daquilo que era conhecido como doenças nervosas 'funcionais', com vistas a superar a impotência que até então caracterizara seu tratamento médico. Os neurologistas daquele período haviam sido instruídos a terem um elevado respeito por fatos químico-físicos e patológico-anatômicos e estavam ultimamente sob a influência dos achados de Hitzig e Fritsch, de Ferrier, Goltz e outros, que pareciam ter estabelecido uma vinculação íntima e possivelmente exclusiva entre certas funções e partes específicas do cérebro. 

Dr. G.T. Fritsch

Eduard Hitzig (1898)

                                                       
      4° A Quem Eles Deixavam A Interpretação Do Fator Psíquico? - Eles não sabiam o que fazer do fator psíquico e não podiam entendê-lo. Deixavam-no aos filósofos, aos míticos e - aos charlatãs; e consideravam não científico ter qualquer coisa a ver com ele. Por conseguinte, não podiam encontrar qualquer abordagem aos segredos das neuroses, e, em particular, da enigmática 'histeria', que, na verdade, era o protótipo de toda a espécie. Já em 1885, quando eu estava estudando na Salpêtrière, descobri que as pessoas se contentavam em explicar as paralisias histéricas através de uma fórmula que asseverava serem elas fundadas em ligeiros distúrbios funcionais das mesmas partes do cérebro que, quando gravemente danificadas, levavam às paralisias orgânicas correspondentes.


Filósofos Da Antiguidade


      5° O Tratamento Utilizado Nos Casos De Histeria - Naturalmente, essa falta de compreensão afetava também bastante o tratamento desses estados patológicos. Em geral, ele consistia em medidas destinadas a 'endurecer' o paciente - na prescrição de remédios e em tentativas, na maioria muito mal imaginadas e executadas de maneira inamistosa, de aplicar-lhe influências mentais por meio de ameaças, zombarias e advertências, e exortando-o a decidir-se a 'conter-se'. O tratamento elétrico era fornecido como sendo uma cura específica para estados nervosos; porém, todo aquele que se tenha esforçado por cumprir as instruções pormenorizadas de Erb (1882), tem de maravilhar-se com o espaço que a fantasia pode ocupar mesmo naquilo que professa ser uma ciência exata. 


Exemplo De Tratamento Elétrico: Choque Insulínico


      6° A Entrada Da Hipnose Em 1880 - A guinada decisiva foi dada na década de 1880, quando os fenômenos do hipnotismo fizeram mais uma tentativa de buscar admissão à ciência médica - dessa vez com mais sucesso do que tantas vezes antes, graças ao trabalho de Liébeault, Bernheim, Heidenhain e Forel. O essencial foi ter sido reconhecida a genuinidade desses fenômenos. Uma vez isso admitido, duas lições fundamentais e inesquecíveis não podiam deixar de ser extraídas do hipnotismo. Em primeiro lugar, recebia-se prova convincente de que notáveis mudanças somáticas afinal de contas podiam ser ocasionadas unicamente por influências mentais, as quais, nesse caso, nós próprios tínhamos colocado em movimento. Em segundo, recebia-se a impressão mais clara - especialmente do comportamento dos indivíduos após a hipnose - da existência de processos mentais que só se poderia descrever como 'inconscientes'.



                   

       

 
Hippolyte Bernheim

   
      7° O Inconsciente Na Década De 1880 - O 'inconsciente', é verdade, há muito tempo estivera sob discussão entre os filósofos como conceito teórico, mas agora, pela primeira vez, nos fenômenos do hipnotismo ele se tornava algo concreto, tangível e sujeito a experimentação. Independentemente de tudo isso, os fenômenos hipnóticos mostravam uma semelhança inequívoca com as manifestações de algumas neuroses.


      8° A Hipnose Como Auxílio No Estudo Das Neuroses - A hipnose também provou ser um auxílio valioso no estudo das neuroses - mais uma vez, primeiro e acima de tudo, da histeria. Os experimentos de Charcot criaram grande impressão. Suspeitou ele que certas paralisias ocorridas após um trauma (um acidente) eram de natureza histérica, e demonstrou que, pela sugestão de um trauma sob hipnose, podia provocar artificialmente paralisias do mesmo tipo. Surgiu assim a expectativa de que as influências traumáticas poderiam, em todos os casos, ter um desempenho na produção dos sintomas histéricos. O próprio Charcot não fez outros esforços no sentido de uma compreensão psicológica da histeria, mas seu aluno, Pierre Janet, retomou a questão e pôde demonstrar, com o auxílio da hipnose, que os sintomas da histeria eram firmemente dependentes de certos pensamentos inconscientes (idées fixes). Janet atribuiu à histeria uma suposta incapacidade constitucional de manter reunidos processos mentais - incapacidade que levava a uma desintegração (dissociação) da vida mental. 

Jean Martin Charcot

                                                               

      9° O Fator Decisivo Para A Psicanálise - A psicanálise, contudo, de maneira alguma se baseou nessas pesquisas de Janet. O fator decisivo, em seu caso (para a psicanálise), foi a experiência de um médico vienense, o Dr. Josef Breuer. Em 1881, independentemente de qualquer influência externa, ele pôde, com o auxílio da hipnose, estudar e restituir à saúde uma jovem muito dotada que sofria de histeria. Os achados de Breuer não foram comunicados ao público senão quinze anos mais tarde, após ele haver tomado por colaborador o presente autor (Freud). Esse caso de Breuer retém sua significação única para nossa compreensão das neuroses até o dia de hoje.   


Dr. Josef Breuer


      10° O Caso De Breuer - A jovem caíra enferma enquanto servia de enfermeira para o pai, a quem estava ternamente ligada. Breuer pôde estabelecer que todos os seus sintomas estavam relacionados a esse período de enfermagem e podiam ser por ele explicados. Assim, pela primeira vez, tornou-se possível ganhar uma visão completa de um caso dessa enigmática neurose, e todos os seus sintomas demonstraram ter significado. Ademais, constituiu característica universal dos sintomas terem eles surgido em situações que envolviam um impulso a uma ação que, contudo, não fora levada a cabo, mas sim, por outras razões, fora suprimida. Os sintomas, de fato, haviam aparecido em lugar das ações não efetuadas. Assim, para explicar a etiologia dos sintomas histéricos, fomos levados à vida emocional do indivíduo (à afetividade) e à ação recíproca de forças mentais (à dinâmica), e, desde então, essas duas linhas de abordagem nunca mais foram abandonadas.   


Anna O., pseudônimo de Bertha Pappenheim (1859-1936), paciente de Josef Breuer, que publicou seu estudo de caso no "Estudos sobre a Histeria” (1895)


      11° As Causas Precipitantes Do Sintoma Histérico - As causas precipitantes dos sintomas foram comparadas por Breuer aos traumas de Charcot. Ora, constituía fato notável que todas essas causas precipitantes traumáticas e todos os impulsos mentais que delas se originavam estavam perdidos para a memória da paciente, como se jamais houvessem acontecido, ao passo que seus produtos - os sintomas - persistiam inalterados, como se, no que lhes concernia, não existisse aquilo denominado de Efeito Obliterador do Tempo. Aqui, portanto, tínhamos uma nova prova da existência de processos mentais que eram inconscientes, mas, por essa razão, especialmente poderosos - processos que primeiro vínhamos conhecendo na sugestão pós-histórica. 


      12° O Procedimento Terapêutico Adotado Por Breuer - O procedimento terapêutico adotado por Breuer foi induzir a paciente sob hipnose a relembrar os traumas esquecidos e reagir a eles com poderosas expressões de afeto. Quando isso era feito, o sintoma, que até então tomara o lugar dessas expressões de emoção, desaparecia. Dessa maneira, um só e mesmo procedimento servia simultaneamente aos propósitos de investigar o mal e livrar-se dele, e essa conjunção fora do comum foi posteriormente conservada pela psicanálise.  


      13° Estudos Sobre Histeria - Após o presente autor (Freud), durante o começo da década de 1890, ter confirmado os resultados de Breuer em considerável número de pacientes, ambos, Breuer e Freud, decidiram conjuntamente uma publicação, Estudos Sobre Histeria (1895d), que continha suas descobertas e a tentativa de uma teoria nelas baseada. Asseverava esta que os sintomas histéricos surgiam quando o afeto de um processo mental catexizado por um forte afeto era impedido pela força de ser conscientemente elaborado da maneira normal, e era assim desviado para um caminho errado. Nos casos de histeria, segundo essa teoria, o afeto passava para uma enervação somática fora do comum ('Conversão'), mas se lhe podia dar outra direção e ver-se livre dele ('Ab-reagido') se a experiência fosse revivida sob hipnose. Os autores davam a esse procedimento o nome de 'Catarse' (purgar, liberar um afeto estrangulado).





      14° O Abandono Da Hipnose Pela Psicanálise - O método catártico foi o percursor imediato da Psicanálise, e, apesar de toda a ampliação da experiência e toda modificação da teoria, ainda está nela contido como seu núcleo. Ele, porém, não era mais que um novo procedimento médico para influenciar certas doenças nervosas e nada sugeria que se pudesse tornar tema para o interesse mais geral e para a contradição mais violenta.  

















sábado, 7 de junho de 2014

"Uma Breve Descrição Da Psicanálise"

      O primeiro texto que utilizaremos para nossos resumos e conteúdos para discussões, filmografias e derivados conhecimentos será: Uma Breve Descrição Da Psicanálise.


                                                     Uma Breve Descrição Da Psicanálise

                                                                      Nota Do Editor Inglês

                                                KURZER ABRISS DER PSYCHOANALYSE

                     
                                               (a) EDIÇÕES ALEMÃS:

                                               (1923 Data da Composição)
                                                1928 G.S., 11, 183-200.
                                                1940 G.W., 43, 403-27.


                                                   (b) TRADUÇÃO INGLESA:
                          
                                                   'Psychoanalysis: Exploring the Hidden
                                                                      Recesses of the Mind'


                      1924 Em These Eventful Years: The Twentieth Century in the Making, as Told by Many of its Makers, Vol. II, Cap. LXXIII, 511-23, Londres e Nova Iorque: Encyclopaedia Britannica Publishing Co. (Trad. de A. A. Brill.)

                       A presente tradução inglesa, com título modificado, é nova, da autoria de James Strachey.


                   Informa-nos Ernest Jones (1957, 114) que esta matéria foi escrita por Freud, a pedido dos editores americanos, em outubro e novembro de 1923. Este trabalho deve ser distinguido do artigo escrito cerca de dois anos mais tarde para a própria Encyclopaedia Britannica (1926f). O texto original alemão, com o título menos emocionante que o americano, foi pulicado pela primeira vez em 1928.