sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Sobre Os Sonhos

                                                   Sobre Os Sonhos
                                                   Uber Den Traum


                   (a) Edições Alemãs:
                     
                   1901 Uber den Traum. Publicada pela primeira vez como parte                              (págs.307-344) de uma publicação seriada, Grenzfragen des                                  Nervenund Seelenlebens, org. por L. Lowenfeld e H. Kurella,                                Wiesbaden, Bergmann.

                   1911 2ª edição. (Publicada como brochura separada e ampliada.)                            Mesmos organizadores, 44 págs.

                   1921 3ª edição. Munique e Wiesbaden, Bergmann, 44 págs.

                   1925 Nos Gesammelle Schriften de Freud, 3, 189-256, Leipzig,                            Viena e Zurique; Internationaler Psychoanalytischer Verlag.

                   1931 No volume coletivo de Freud, Sexualtheorie und Traumlehre,                        246-307, mesmos organizadores.

                   1942 Nas Gesammelle Werke de Freud, 2 e 3, 643-700, Londres,                           Imago Publishing Co.


                    (b) Traduções Inglesas:

                    1914 De M. D. Eder (com introdução de W. L. Mackenzie).                                   Londres, Heinemann; Nova Iorque, Rebman, XXXII + 110 págs.

                    1952 De James Strachey, Londres, Hogarth Press e Institute of                               Psycho-Analysis, VII + 80 págs. Nova Iorque, Norton, 120 págs.




      1º O Sonho E A Rejeição Mitológica - Durante a época que se pode descrever como pré-científica, os homens não tinham nenhuma dificuldade em descobrir uma explicação para os Sonhos. Quando se lembravam de um sonho depois de acordar, encaravam-no como uma manifestação favorável ou hostil de poderes superiores, demoníacos e divinos. Quando começaram a florescer as maneiras de pensar próprias da ciência natural, toda essa engenhosa mitologia se transformou em Psicologia, e hoje apenas uma pequena minoria de pessoas cultas duvida de que os Sonhos sejam um produto do próprio psiquismo do sonhador.




      2º O Sonho Carece Ser Esclarecido - Desde a rejeição da hipótese mitológica, porém, os Sonhos passaram a carecer de uma explicação. As condições de sua origem, sua relação com a vida anímica de vigília, sua dependência de estímulos que se impõem à percepção durante o estado de sono, as muitas peculiaridades de seu conteúdo que repugnam ao pensamento desperto, a incoerência entre suas imagens de representação e os afetos a elas ligados e, por fim, seu caráter transitório, a maneira como o pensamento de vigília os põe de lado como algo que lhe é estranho, e os mutila ou extingue na memória - todos esses problemas, e outros ainda, vem aguardando esclarecimento há muitas centenas de anos e, até agora, nenhuma solução satisfatória foi proposta para eles.

      Mas o que se coloca em primeiro plano em nosso interesse é a questão da Significação dos Sonhos, questão esta que encerra um duplo sentido. Em primeiro lugar, ela indaga sobre a Significação Psíquica do Sonhar, sobre a relação dos Sonhos com outros processos anímicos e sobre sua eventual função biológica; em segundo, busca descobrir se os Sonhos podem ser interpretados, se o conteúdo de cada Sonho tem um "sentido" tal como estamos acostumados a encontrar em outras estruturas psíquicas.




      3º As Linhas De Pensamentos Dos Sonhos - Na avaliação da significação dos Sonhos, três linhas de pensamento podem ser distinguidas.

      Uma delas, que ecoa, por assim dizer, a antiga supervalorização dos Sonhos, se expressa nos trabalhos de certos filósofos. Eles consideram que a base da vida onírica é um estado peculiar de atividade anímica e chegam até a aclamar esse estado como uma elevação a um nível superior. Por exemplo, Schubert [1814] declara que os Sonhos são a emancipação do espírito do jugo da natureza externa e a liberação da alma das amarras dos sentidos. Outros pensadores, sem irem tão longe assim, insistem, não obstante, em que os Sonhos brotam essencialmente de impulsos da alma e representam manifestações de forças anímicas impedidas de se expandirem livremente durante o dia. (Cf. a "Fantasia Onírica" de Scherner [1861, 97 e segs.] e Volkelt [1875, 28 e segs.].) Um grande número de observadores concorda em atribuir à vida onírica a capacidade de um funcionamento superior, pelo menos em certos âmbitos (na memória, por exemplo).



      4° A Visão Médica Sobre Os Sonhos - Em nítido contraste com isso, a maioria dos autores médicos adota uma visão segundo a qual os Sonhos mal chegam a atingir o nível de fenômenos psíquicos. Segundo sua teoria, os únicos instigadores dos Sonhos são os estímulos sensoriais e somáticos que incidem sobre a pessoa adormecida desde o exterior, ou que se tornam acidentalmente ativos em seus órgãos internos. O sonhado, argumentam eles, não pode reclamar para si mais sentido e significado do que, por exemplo, os sons que seriam produzidos se "os dez dedos de um homem que nada conhece de música vagassem pelas teclas de um piano". [Strumpell, 1877, 44.] Os Sonhos são descritos por Binz [´1878, 35] como não passando de "processos somáticos inúteis em todos os casos e, em muitos deles, positivamente patológicos". Todas as características da vida onírica, portanto. seriam explicadas como devidas à atividade desconexa de órgãos ou grupos de células isoladas num cérebro no mais adormecido, atividade essa que lhes é imposta por estímulos fisiológicos.




      5° Visão Popular Sobre Os Sonhos - A opinião popular é pouco afetada por esse juízo científico e não se interessa pelas origens dos sonhos; parece persistir na crença de que, apesar de tudo, os Sonhos possuem um sentido, que se relaciona com a predição do futuro e pode ser descoberto por algum processo de interpretação de um conteúdo frequentemente confuso e enigmático. Os métodos de interpretação empregados consistem em transformar o conteúdo do Sonho tal como ele é lembrado, seja substituindo-o aos pedacinhos, de acordo com uma chave fixa, seja substituindo a totalidade do sonho por um outro todo com o qual ela mantém uma relação simbólica. As pessoas sérias se riem desses esforços: "Traume sind Schaume" - "Os Sonhos São Espumas".



quinta-feira, 9 de julho de 2015

Por Que A Psicanálise?

                                             Resumo Do 4° Capítulo 

                                        O Homem Comportamental


   

      01º As Diferentes Revisões Do DSM (Manual Diagnóstico E Estatístico Dos Distúrbios Mentais) - Os conceitos (Psicose, Neurose, Perversão) foram substituídos pela noção frouxa de "Distúrbio" (disorder = distúrbio, desordem), e as entidades clínicas foram abandonadas em favor de uma caracterização sintomática desses famosos Distúrbios. Assim, a Histeria foi reduzida a um Distúrbio Dissociativo ou "Conversivo", passível de ser tratado como um Distúrbio Depressivo, e a Esquizofrenia foi assimilada a uma perturbação do curso do pensamento etc.







      Por outro lado, na tentativa de evitar qualquer polêmica, as diferentes versões do DSM acabaram por abolir a própria ideia de doença. A expressão "Distúrbio Mental" serviu para contornar o problema delicado da inferiorização do paciente, que, se fosse tratado como doente, imporia o risco de exigir "indenizações" do praticante do DSM e até de mover processos judiciais contra ele. Dentro dessa mesma perspectiva, o adjetivo "alcoólatra" foi substituído por "dependente de álcool", além de se haver preferido renunciar à ideia de "Esquizofrenia" em benefício de uma parífrase: "afetado por distúrbios que remetem a uma perturbação de tipo esquizofrênico".

      Igualmente preocupados em preservar as diferenças culturais, os autores do DSM debateram a questão de saber se as condutas políticas, religiosas ou sexuais chamadas "desviantes" deveriam ou não ser assimiladas a Distúrbios Do Comportamento. Concluíram pela negativa, mas afirmaram também que o critério de "agnóstico" só teria valor se o paciente pertencesse a um grupo étnico diferente do examinador.

      À medida que foram sucedendo as diferentes revisões, os promotores do DSM foram caindo um pouco mais no ridículo. Entre 1973 e 1975, chegaram até a se esquecer dos princípios fundamentais da ciência. Substituíram "Homossexualidade" por "Homossexualidade Egodistônica", expressão designativa daqueles que são mergulhados na depressão por suas Pulsões. Tratou-se, na verdade, como assinalou Lawrence Hartmann, de eliminar uma entidade nosográfica para substituí-la pela descrição de um estado depressivo ou ansioso passível de ser tratado pela Psicofarmacologia ou pelo comportamentalismo: "Acho preferível", disse ele, "não utilizar a palavra "homossexual", que pode prejudicar a pessoa. A palavra Depressão não cria problemas, nem tampouco Neurose De Angústia (...). Utilizo as categorias mais vagas e mais genéricas, desde que sejam compatíveis com minha preocupação com a verdade. As companhias de seguros estão convenientemente informadas de que os rótulos diagnósticos que lhes são comunicados são suavizados para não prejudicar o paciente.






      Em 1975, uma comissão de psiquiatras negros exigiu a inclusão do Racismo entre os Distúrbios Mentais. Principal redator do Manual, Robert Spitzer rejeitou essa sugestão justificadamente, mas deu ao Racismo uma definição absurda: "No âmbito do DSM III, deveríamos citar o Racismo como bom exemplo de um estado correspondente a um funcionamento psicológico não ótimo, que, em certas circunstâncias, fragiliza a pessoa e conduz ao aparecimento de sintomas."







      Os princípios enunciados no Manual foram tomados como fonte autorizada de um extremo a outro do planeta a partir do momento em que foram adotados pela Associação Mundial De Psiquiatria (WPA), fundada por Henri Ey em 1950, e, mais tarde, pela Organização Mundial De Saúde (OMS). Com efeito, na décima revisão de sua classificação das doenças (CIM-10), no capítulo F, a OMS definiu os Distúrbios Mentais e os Distúrbios Do Comportamento segundo os mesmos critérios do DSM IV. Por último, depois de 1994, na nova revisão do DSM (ou DSM IV-R), os mesmos princípios - denominados Zero-to-three (ou 0-3) - foram acrescentados ao estudo dos comportamentos considerados dissociativos, traumáticos e depressivos do bebê e das crianças pequenas.



Henri Ey




      O desmembramento dos quatro grandes modelos, que haviam permitido à psiquiatria dinâmica associar uma teoria do sujeito a uma nosologia e a uma antropologia, teve o efeito, portanto, de separar a Psicanálise da psiquiatria, de remeter essa última ao campo de uma medicina biofisiológica que exclui a Subjetividade e, mais tarde, de favorecer uma extraordinária exploração das reivindicações de Identidade e das escolas de Psicoterapia, primeiro nos Estados Unidos e, depois, em todos os países da Europa.

      Nascidas ao mesmo tempo que a Psicanálise, essas escolas de Psicoterapia tem como ponto comum contornar três conceitos Freudianos, a saber, os de Inconsciente, Sexualidade e Transferência. Elas opõem ao Inconsciente Freudiano um Subconsciente Cerebral, biológico ou automático; à Sexualidade, no sentido Freudiano (conflito psíquico), ora preferem uma teoria dos instintos. Por último, opõem à transferência como motor do tratamento clínico uma relação terapêutica derivada da sugestão. 

      Entretanto, deve-se que constatar que somente a Psicanálise foi capaz, desde suas origens, de realizar a síntese dos quatro grandes modelos da psiquiatria dinâmica que são necessários a uma apreensão racional da Loucura e da doença Psíquica. Com efeito, ela tomou emprestado da psiquiatria o modelo nosográfico, da psicoterapia o modelo de tratamento psíquico, da filosofia uma teoria do sujeito, e da antropologia uma concepção de cultura fundamentada na ideia de uma universalidade do gênero humano que respeita as diferenças. 

      A menos que venha a se desonrar, portanto, ela não pode, como tal, contribuir para a ideia, hoje dominante, de uma redução da organização psíquica a comportamentos. Se o termo "Sujeito" tem algum sentido, a subjetividade não é mensurável nem quantificável: ela é a prova, ao mesmo tempo visível e invisível, consciente e Inconsciente, pela qual se afirma a essência da experiencia humana. 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Por Que A Psicanálise?

                                            Resumo Do 4° Capítulo 

                                        O Homem Comportamental


      1° A Humanização Do Sofrimento Através Do Modelo Culturalista - Desvinculado dos outros grandes modelos da Psiquiatria Dinâmica, o Modelo Culturalista, na verdade, parece pôr em prática uma humanização do sofrimento, embora, na realidade, leve o paciente a acreditar que seu mal estar não provém dele ou de suas relações com os outros, mas de espíritos maléficos, dos astros, das pessoas que lhe deitam mau olhado ou, numa palavra, da "cultura" e da chamada pertença étnica. A explicação através do cultural, portanto, associa-se à casualidade orgânica e remete o sujeito ao universo da possessão.


      2° Como O DSM Foi Elaborado? - (...) estudar a evolução do famoso Manual Diagnóstico E Estatístico Dos Distúrbios Mentais (DSM), cuja primeira versão (DSM I) foi elaborada pela American Psychiatric Association (APA) em 1952.

      Nessa ocasião, o Manual levava em conta as conquistas da Psicanálise e da Psiquiatria Dinâmica. Defendia a ideia de que os distúrbios psíquicos e mentais decorriam essencialmente da história inconsciente do sujeito, de seu lugar na família e de sua relação com o meio social. (...) Por essa perspectiva, a noção de causalidade orgânica não era desprezada, e a Psicofarmacologia, então em plena extensão, era utilizada em associação com o tratamento pela fala ou com outras terapias dinâmicas.




      Depois de 1952, o Manual foi revisado pela APA em diversas ocasiões, sempre no sentido de um abandono radical da síntese efetuada pela Psiquiatria Dinâmica. Calcado no esquema sinal-diagnóstico-tratamento, ele acabou eliminando de suas classificações a própria subjetividade. Houve quatro revisões: em 1968 (DSM II), em 1980 (DSM III), em 1987 (DSM III-R) e em 1994 (DSM IV). O resultado dessa operação progressiva de limpeza, dita "ateórica", foi um desastre. Fundamentalmente, ela visou a demonstrar que o distúrbio da alma e do psiquismo devia ser reduzido ao equivalente à pane de um motor.




     3° Existe CURA Em Psicanálise? - Trata-se de uma nuance considerável, e que diz respeito à própria definição do status da cura em Psicanálise. Com efeito, como já recordei, no campo do psiquismo não existe cura no sentido como esta é constatada no campo das doenças somáticas, sejam elas genéticas ou orgânicas. Na medicina científica, a eficácia apoia-se no modelo sinais-diagnóstico-tratamento. Constatam-se os sintomas (febre), dá-se um nome à doença (febre tifóide) e se administra um tratamento (medicamento antibiótico). O doente então fica "curado" do mecanismo biológico da doença.



quinta-feira, 23 de abril de 2015

A Psicanálise Sob O Olhar De... Françoise Giroud

                                                        A Análise


      "A Análise é árdua e faz sofrer. Mas, quando se está desmoronando sob o peso das palavras recalcadas, das condutas obrigatórias, das aparências a serem salvas, quando a imagem que se tem de si mesmo torna-se insuportável, o remédio é esse. Pelo menos, eu o experimentei e guardo por Jacques Lacan uma gratidão infinita (...). Não mais sentir vergonha de si mesmo é a realização da liberdade (...). Isso é o que uma Psicanálise bem conduzida ensina aos que lhe pedem socorro."



Françoise Giroud

A Psicanálise Sob O Olhar De... Sigmund Freud

                                                   Sobre A Libido...


      ... A um outro psicólogo norte-americano que lhe propôs "medir" a Libido e dar seu nome (um freud) à unidade de medida, ele também respondeu:

      "Não entendo de física o suficiente para formalizar um juízo confiável nessa matéria. Mas, se o senhor me permite pedir-lhe um favor, não dê meu nome à sua unidade. Espero poder morrer, um dia, com uma Libido que não tenha sido medida."



quarta-feira, 22 de abril de 2015

Porque A Psicanálise?


                                             Resumo Do Capítulo 2

                                       Os Medicamentos Do Espírito


      1º O Que São E Para Que Servem Os Psicotrópicos? - A partir de 1950, as substâncias químicas - ou psicotrópicos - modificaram a paisagem da loucura. Esvaziaram os manicômios e substituíram a camisa de força e os tratamentos de choque pela redoma medicamentosa. Embora não curem nenhuma doença mental ou nervosa, elas revolucionaram as representações do Psiquismo, fabricando um "novo homem", polido e sem humor, esgotado pela evitação de suas paixões, envergonhado por não ser conforme ao ideal que lhe é proposto.



      Receitados tantos por clínicos gerais quanto pelos especialistas em Psicopatologia, os Psicotrópicos tem o efeito de normalizar comportamentos e eliminar os sintomas mais dolorosos do sofrimento psíquico, sem lhes buscar a significação.


      2º Psicotrópicos E Seus Grupos - Os Psicotrópicos são classificados em três grupos:


  1. Os Psicolépticos - neste grupo encontram-se os medicamentos hipnóticos, que tratam os distúrbios do sono, bem como os ansiolíticos e os tranquilizantes, que eliminam os sinais de angústia, ansiedade, fobia e de diversas outras neuroses e, por fim, os neurolépticos (ou antipsicóticos), que são medicamentos específicos para a Psicose e todas as formas de Delírios crônicos ou agudos.                                                                                                            
  2. Os Psicoanalépticos  - neste grupo reúnem-se os estimulantes e os antidepressivos.                                                                                                           
  3.  Os Psicodislépticos - neste grupo estão os medicamentos alucinógenos, os estupefacientes e os reguladores de humor.
 
                            


      3º A Camisa De Força Química - A princípio, a Psicofarmacologia deu ao homem uma recuperação da liberdade. Postos em circulação por dois psiquiatras franceses, Jean Delay e Pierre Deniker, os neurolépticos desenvolveram a fala ao louco. Permitiram sua reintegração na cidade. Graças a eles, os tratamentos bárbaros e ineficazes foram abandonados. Quantos aos ansiolíticos e aos antidepressivos, trouxeram aos neuróticos e aos deprimidos uma tranquilidade maior.
 
        


      No entanto, à força de acreditar no poder de suas poções, a Psicofarmacologia acabou perdendo parte de seu prestígio, a despeito de sua impressionante eficácia. Na verdade, ela encerrou o sujeito numa nova alienação ao pretender curá-lo da própria essência da condição humana. Por isso, através de suas ilusões, alimentou um novo irracionalismo. É que, quanto mais se promete o "fim" do sofrimento psíquico através da ingestão de pílulas, que nunca fazem mais do que suspender sintomas ou transformar uma personalidade, mais o sujeito, decepcionado, volta-se em seguida para tratamentos corporais ou mágicos.

      Não surpreende, portanto, que os excessos da Farmacologia tenham sido denunciados justamente por aqueles que a haviam enaltecido, e que hoje reivindicam que os remédios da mente sejam administrados de maneira mais racional e em coordenação com outras formas de tratamento: Psicoterapia e Psicanálise.

      ... o inventor desses medicamentos, Henri Laborir, sempre declarou que a Psicofarmacologia não era, como tal, a solução para todos os problemas:
"Por que ficamos contentes por dispor de Psicotrópicos? Porque a sociedade em que vivemos é insuportável. As pessoas não conseguem mais dormir, ficam angustiadas e necessitam ser tranquilizadas, mais nas megalópoles do que noutros lugares. Às vezes me censuram por haver inventado a Camisa De Força Química..."

      ... De fato, ela (a Psicofarmacologia) permite que todos os médicos - em especial os clínicos gerais - abordem da mesma maneira todo tipo de afecções, sem que jamais se saiba de que tratamento elas dependem. Assim, Psicoses, Neuroses, Fobias. Melancolias e Depressões são tratadas pela Psicofarmacologia como um punhado de estados ansiosos, decorrentes de lutos, crises de pânico passageiras, ou de um nervosismo extremo, devido a um ambiente fácil. 

      ... passada a Ideologia Medicamentosa ...

      4º A Banalização Da Psicanálise E O Destino Da Anna O. - A palavra "Psicanálise" fez sua aparição em 1896, num texto de Sigmund Freud redigido em francês.  Um ano antes, com seu amigo Josef Breuer, ele havia publicado seus famosos Estudos Sobre A Histeria, livro em que relatava o caso de uma moça judia vienense que sofria de uma estranha doença de origem psíquica, na qual eram postas em cena Fantasias Sexuais através de contorções do corpo. A paciente chamava-se Berta Pappenheim, e seu médico, Breuer, que vinha cuidando dela pelo chamado método "catártico", deu-lhe o nome de Anna O. A história dessa paciente viria a se tornar lendária, pois é Anna O., isto é, a uma mulher, e não a um cientista, que se atribui a invenção do método Psicanalítico: um tratamento baseado na fala, um tratamento em que o fato de se verbalizar o sofrimento, de encontrar palavras para expressá-lo, permite, se não curá-lo, ao menos tomar consciência de sua origem e, portanto, assumi-lo.

      Consultando os arquivos, os historiadores modernos demonstraram que o famoso caso de Anna O., apresentado por Freud e Breuer como protótipo da cura catártica, não levou, na realidade, à cura da paciente. Em todo caso, Freud e Breuer decidiram publicar a história dessa mulher e expô-la como um caso princeps, para melhor reivindicar, em oposição ao psicólogo francês Pierre Janet, a prioridade da descoberta do método catártico. Quanto a Berta Pappenheim, se não foi curada de seus sintomas, certamente se transformou numa outra mulher. Militante feminista, devota e rígida, consagrou sua vida aos órfãos e às vítimas do anti-semitismo, sem jamais evocar o tratamento psíquico que recebeu na juventude e que fez dela um mito.


      5° Psicanálise Presente E Não Presente - Quanto mais as instituições psicanalíticas implodem, mais a Psicanálise está presente nas diferentes esferas da sociedade e mais serve de referência histórica para a Psicologia Clínica que, no entanto, veio substituí-la. A língua da Psicanálise transformou-se num idioma comum, falado tanto pelas massas quanto pelas elites... Hoje em dia, ninguém mais desconhece o vocabulário Freudiano: fantasia, supereu, desejo, libido, sexualidade, etc...  


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Por Que A Psicanálise?

                                                           Resumo Do Capítulo 1

                                                           A Derrota Do Sujeito



      01 O Manifestar-Se Do Sofrimento Psíquico - O Sofrimento Psíquico manifesta-se atualmente sob a forma da Depressão. Atingido no corpo e na alma por essa estranha síndrome em que se misturam a Tristeza e a Apatia, a busca da Identidade e o Culto De Si Mesmo, o homem deprimido não acredita mais na validade de nenhuma Terapia. No entanto, antes de rejeitar todos os tratamentos, ele busca desesperadamente vencer o Vazio de seu desejo. Por isso, passa da Psicanálise para a Psicofarmacologia e da Psicoterapia para a Homeopatia, sem se dar tempo de refletir sobre a origem de sua infelicidade. Aliás, ele já não tem tempo para nada, à medida que se alongam o tempo de Vida e o do Lazer, o tempo do desemprego e o tempo do tédio .






      02 O Mundo Do "Contrário" - Quanto mais a Sociedade apregoa a emancipação, sublinhando a Igualdade de todos perante a lei, mais ela acentua as diferenças. No cerne desse dispositivo, cada um reivindica sua singularidade, recusando-se a se identificar com as imagens da Universalidade, julgadas caducas. Assim, a era da Individualidade substitui a da subjetividade; dando a si mesmo a Ilusão de uma liberdade irrestrita, de uma independência sem desejo e de uma historicidade sem história, o homem de hoje transformou-se no contrário de um sujeito. 

      Longe de construir seu Ser a partir da Consciência das determinações Inconscientes que o perpassam à sua revelia, longe de ser uma Individualidade Biológica, longe de pretender-se um sujeito Livre, desvinculado de suas raízes e de sua Coletividade, ele se toma por senhor de um destino cuja significação reduz a uma reivindicação normativa. Por isso, liga-se a redes, a grupos, a coletivos e a comunidades, sem conseguir afirmar sua verdadeira Diferença.






      03 A Era Das Medicinas Paralelas - Cada paciente é tratado como um ser Anônimo, pertencente a uma totalidade orgânica. Imerso numa Massa em que todos são criados à imagem de um Clone, ele vê ser-lhe receitada a mesma gama de medicamentos, seja qual for o seu Sintoma. Ao mesmo tempo, no entanto, busca outra saída para seu infortúnio, De um lado, entrega-se à Medicina Científica, e de outro, aspira a uma Terapia que julga mais apropriada para o reconhecimento de sua identidade. Assim, perde-se no Labirinto Das Medicinas Paralelas.

      É por isso que assistimos, nas sociedades ocidentais, a um crescimento inacreditável do Mundinho Dos Curandeiros, dos Feiticeiros, dos Videntes e dos Magnetizadores. Frente ao cientificismo erigido em Religião e diante das Ciências Cognitivas, que valorizavam o homem-máquina em detrimento do homem desejante, vemos florescer, em contrapartida, toda sorte de práticas, ora surgidas da pré-história do Freudismo, ora de uma concepção ocultista do corpo e da mente: magnetismo, sofrologia, naturopatia, iridologia, auriculoterapia, energética transpessoal, sugestologia, mediunidade, etc. Ao contrário do que se poderia supor, essas práticas seduzem mais a classe média - funcionários, profissionais liberais e executivos - do que os meios populares, ainda apegados, apesar da precariedade da 'Vida Social', a uma concepção republicana da medicina científica.

      (A Ilusão Da Cura) - Essas práticas tem como denominador comum o oferecimento de uma crença - e portanto, de uma Ilusão De Cura - a pessoas mais abastardas, mais desestabilizadas pela crise econômica, e que ora se sentem vítimas de uma tecnologia médica demasiadamente distanciada de seu sofrimento, ora vítimas da impotência real da medicina para curar certos Distúrbios Funcionais. Assim, é que L'Express publicou uma pesquisa que revela que 25% dos franceses passaram a buscar na reencarnação e na crença em vidas anteriores uma solução para seus problemas existenciais (pesquisa publicada em 1997).






      04 A Era Da Evitação Na Sociedade Moderna - A sociedade democrática moderna quer banir de seu horizonte a realidade do Infortúnio, da Morte e da Violência, ao mesmo tempo procurando integrar num sistema único as diferenças e as resistências. Em nome da globalização e do sucesso econômico, ela tem tentado abolir a ideia de Conflito Social. Do mesmo modo, tende a criminalizar as revoluções e a retirar o heroísmo da guerra, a fim de substituir a política pela ética e o julgamento histórico pela sanção judicial. Assim, ela passou da Era Do Confronto para a Era Da Evitação, e do culto da glória para a revalorização dos covardes. Hoje em dia, não é chocante... transformar os heróis em traidores... Nunca se celebrou tanto o dever da memória, nunca houve tanta preocupação com a Shoah (termo hebraico que designa o genocídio perpetrado pelos nazistas contra os judeus na Segunda Guerra Mundial) e o extermínio dos judeus e, no entanto, nunca a revisão da história foi tão longe.






      05 O Silencioso Ódio Ao Outro - Daí uma concepção da norma e da patologia que repousa num princípio intangível: todo indivíduo tem o direito e, portanto, o dever de não mais manifestar ser Sofrimento, de não mais se entusiasmar com o menor ideal que não seja o do pacifismo ou da moral humanitária. Em consequência disso, o ódio ao outro tornou-se sub-reptício, perverso e ainda mais temível, por assumir a máscara de dedicação à vítima. Se o ódio pelo outro é, inicialmente, o ódio a si mesmo, ele repousa, como todo Masoquismo, na negação imaginária da alteridade. O outro passa então a ser sempre uma vítima, e é por isso que se gera a intolerância, pela vontade de instaurar no outro a coerência soberana de um Eu Narcísico, cujo ideal seria destruí-lo antes mesmo que ele pudesse existir.






      06 Depressão X Histeria - A substituição é acompanhada, com efeito, por uma valorização dos processos psicológicos de normalização, em detrimento das diferentes formas de exploração do Inconsciente. Tratado como uma Depressão, o Conflito Neurótico Contemporâneo parece já não decorrer de nenhuma casualidade psíquica oriunda do Inconsciente. No entanto, o Inconsciente ressurge através do corpo, opondo uma forte Resistência às disciplinas e às práticas que visam a repeli-lo. Daí o relativo fracasso das Terapias que proliferam. Por mais que estas se debrucem com compaixão sobre a cabeceira do sujeito depressivo, não conseguem curá-lo nem apreender as verdadeiras causas de seu tormento. Só fazem melhorar seu estado,deixando-o esperar por dias melhores... 

      A Histeria sempre pôs em primeiro plano o aparelho locomotor. Ficamos impressionados ao ver como se pode esquecê-la. E também o quanto o fato de evocá-las desperta, no pessoal médico e não médico, inquietação, recusa ou mesmo agressividade em relação ao paciente, assim como por parte daquele ou daquela que recebe esse diagnóstico.





      07 Pequena Nota Sobre Depressão - Saída da neurastenia, noção abandonada por Freud, e da Psicastenia descrita por Janet, a Depressão não é uma Neurose nem uma Psicose nem uma Melancolia, mas uma entidade nova, que remete a um "Estado" pensado em termos de "Fadiga", "Déficit" ou "Enfraquecimento Da Personalidade". O crescente sucesso dessa designação deixa bem claro que as sociedades democráticas do fim do século XX deixaram de privilegiar o conflito como núcleo normativo da formação subjetiva. Em outras palavras, a concepção freudiana de um sujeito do Inconsciente, Consciente de sua liberdade, mas atormentado pelo Sexo, pela Morte e pela Proibição, foi substituída pela concepção mais psicológica de um indivíduo depressivo, que foge de seu Inconsciente e está preocupado em retirar de si a essência de todo o conflito.






      08 O Que Busca O Depressivo? - ... o deprimido deste fim de século (XX) é herdeiro de uma dependência viciada no mundo. Condenado ao esgotamento pela falta de perspectiva revolucionária, ela busca na droga ou na religiosidade, no higienismo ou no culto de um corpo perfeito o ideal de uma felicidade impossível... É assim que, atualmente, os consumidores de tabaco, álcool e psicotrópicos são assemelhados a toxicômanos, considerados perigosos para eles mesmos e para a coletividade. Ora, dentre esses novos "doentes", os tabagistas e os alcoólatras são tratados como deprimidos a quem se receitam psicotrópicos. Mas, que medicamentos do espírito será preciso inventar, no futuro, para tratar da dependência dos que houverem "curado" de seu alcoolismo, seu tabagismo ou algum outro vício (o sexo, a comida, o esporte, etc.), substituindo um abuso por outro?